Sobre o tema
A crônica é um gênero textual que mescla narração e argumentação, frequentemente com tom subjetivo e marcas de oralidade. No texto de Xico Sá, recursos como repetição, jogo de prefixos e referências culturais (Solano Trindade, Cidade Tiradentes) reforçam a crítica social. A questão explora como esses elementos linguísticos são usados para expressar a indignação com a desigualdade brasileira, exigindo do leitor a identificação de coloquialidade, subjetividade e recursos expressivos típicos da crônica jornalística.
Tópicos relacionados
- Recursos expressivos na crônica
- Marcas de oralidade e coloquialidade
- Subjetividade do autor
- Jogos de prefixos e neologismos
- Crítica social na literatura
Enunciado
Entre todas as palavras do momento, a mais flamejante
talvez seja desigualdade. E nem é uma boa palavra,
incomoda. Começa com des. Des de desalento, des de
desespero, des de desesperança. Des, definitivamente,
não é um bom prefixo.
Desigualdade. A palavra do ano, talvez da década, não
importa em que dicionário. Doravante ouviremos falar
muito nela.
De-si-gual-da-de. Há quem não veja nem soletre, mas está
escrita no destino de todos os busões da cidade, sentido
centro/subúrbio, na linha reta de um trem. Solano Trindade,
no sinal fechado, fez seu primeiro rap, “tem gente com
fome, tem gente com fome, tem gente com fome”, somente
com esses substantivos. Você ainda não conhece o
Solano? Corra, dá tempo. Dá tempo para você entender
que vivemos essa desigualdade. Pegue um busão da
Avenida Paulista para a Cidade Tiradentes, passe o vale-
transporte na catraca e simbora – mais de 30 quilômetros.
O patrão jardinesco vive 23 anos a mais, em média, do que
um humaníssimo habitante da Cidade Tiradentes, por
todas as razões sociais que a gente bem conhece.
Evitei as estatísticas nessa crônica. Podia matar de
desesperança os leitores, os números rendem manchete,
mas carecem de rostos humanos. Pega a visão, imprensa,
só há uma possibilidade de fazer a grande cobertura: mire-
se na desigualdade, talvez não haja mais jeito de achar
que os pontos da bolsa de valores signifiquem a ideia de
fazer um país.
(Adaptado de Xico Sá, A vidinha sururu da desigualdade brasileira. Em El País,
28/10/2019. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/28/opinion/
1572287747_637859.html?fbclid=IwAR1VPA7qDYs1Q0Ilcdy6UGAJTwBO_snM
DUAw4yZpZ3zyA1ExQx_XB9Kq2qU. Acessado em 25/05/2020.)
Assinale a alternativa que identifica corretamente recursos
linguísticos explorados pelo autor nessa crônica.
Alternativas
- A)
Uso de verbos no imperativo, linguagem informal, texto
impessoal. - B)
Marcas de coloquialidade, uso de primeira pessoa,
linguagem objetiva. - C)
Marcas de oralidade, uso expressivo de recursos
ortográficos, subjetividade do autor. - D)
Uso de variação linguística, linguagem neutra, apelo
ao tom coloquial.
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Perguntas frequentes
O que são marcas de oralidade em um texto?
São elementos que simulam a fala, como gírias, repetições, interjeições e estruturas sintáticas típicas da conversa, que aproximam o leitor e criam intimidade com o tema.
Como o uso de prefixos como 'des-' contribui para o sentido do texto?
O prefixo 'des-' indica negação ou privação; ao ser repetido, reforça a ideia de falta e desespero, ampliando a crítica à desigualdade.
Qual a importância do autor usar a primeira pessoa em uma crônica?
A primeira pessoa imprime subjetividade e engajamento emocional, permitindo que o autor expresse sua opinião e se coloque como parte da realidade criticada.
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