Sobre o tema
A obra de Machado de Assis é marcada por uma crítica social sutil e por reflexões sobre as relações de poder. No fragmento de Quincas Borba, a analogia do chicote representa a perspectiva de quem detém o controle e obtém prazer ao observar o sofrimento alheio. Essa ideia ecoa o conceito de "Suave mari magno" de Lucrécio, que compara o prazer de observar desgraças alheias de uma posição segura. Machado explora a complexidade moral e a hipocrisia social, temas recorrentes em sua obra. Esta questão exige interpretação de texto e compreensão de recursos retóricos.
Tópicos relacionados
- Analogia em Machado de Assis
- Relações de poder na literatura
- Lucrécio e a filosofia epicurista
- Intertextualidade em Quincas Borba
- Crítica social no Realismo brasileiro
Enunciado
I.
Suave mari magno
Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.
Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.
Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,
Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.
Machado de Assis. Ocidentais.
Expressão latina, retirada de Lucrécio (Da natureza das coisas), a
qual aparece no seguinte trecho: Suave, mari magno, turbantibus
aequora ventis/ E terra magnum alterius spectare laborem. ("É
agradável, enquanto no mar revoltoso os ventos levantam as águas,
observar da terra os grandes esforços de um outro.").
II.
Tão certo é que a paisagem depende do ponto de vista, e
que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo
na mão.
Machado de Assis. Quincas Borba, cap. XVIII.
III.
Sofia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao pé do
leito o marido:
– Que foi? perguntou ele.
– Ah! respirou Sofia. Gritei, não gritei?
(...)
– Sonhei que estavam matando você.
Palha ficou enternecido. Havê-la feito padecer por ele,
ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma
piedade gostosa, um sentimento particular, íntimo,
profundo, – que o faria desejar outros pesadelos, para que
o assassinassem aos olhos dela, e para que ela gritasse
angustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.
Machado de Assis. Quincas Borba, cap. CLXI.
A analogia consiste em um recurso de expressão comumente
utilizado para ilustrar um raciocínio por meio da semelhança
que se observa entre dois fatos ou ideias. No texto II, a
analogia construída a partir da imagem do chicote pretende
sugerir que
Alternativas
- A)
o instrumento do castigo nem sempre cai em mãos justas.
- B)
o apreço aos objetos independe do uso que se faz deles.
- C)
o cabo é metáfora de mérito, e a ponta, metáfora de culpa.
- D)
o mais fraco, por ser compassivo, é incapaz de desfrutar do
poder. - E)
o prazer verdadeiro se experimenta no lado dos dominantes.
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Perguntas frequentes
O que significa a expressão 'Suave mari magno'?
É uma frase do poeta Lucrécio que significa 'É agradável, no mar revolto', referindo-se ao prazer de observar a desgraça alheia de um lugar seguro.
Qual é a função da analogia no fragmento de Quincas Borba?
A analogia do chicote sugere que a verdadeira apreciação do poder está em estar no lado dominante, ou seja, quem detém o controle sente prazer ao exercê-lo.
Por que Machado de Assis é considerado um autor realista?
Porque sua obra retrata a sociedade brasileira do século XIX com crítica, ironia e análise psicológica, revelando hipocrisias e relações de poder.
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