Sobre o tema
O preconceito linguístico é um tema recorrente no ENEM, especialmente quando se discute a relação entre norma-padrão e variações linguísticas. Este texto aborda a trajetória de Adoniran Barbosa, que utilizou intencionalmente registros não padrão do português em suas canções, transformando o que muitos consideravam 'erro' em marca artística. A sociolinguística ensina que toda variedade linguística é sistêmica e adequada a contextos de uso, e o estigma recai sobre falares associados a grupos sociais desprestigiados. Na questão, o 'falar errado' de Adoniran é na verdade uma transgressão consciente da norma-padrão vigente, desafiando elites culturais e aproximando-se do povo.
Tópicos relacionados
- Preconceito linguístico no Brasil
- Variação linguística na música popular
- Norma-padrão e norma culta
- Adoniran Barbosa e a identidade paulista
- Sociolinguística no ENEM
Enunciado
Falar errado é uma arte, Arnesto! No dia 6 de agosto de 1910, Emma Riccini Rubinato pariu um garoto sapeca em Valinhos e deu a ele o nome de João Rubinato. Na escola, João não passou do terceiro ano. Não era a área dele, tinha de escolher outra. Fez o que apareceu. Foi ser garçom, metalúrgico, até virar radialista, comediante, ator de cinema e TV, cantor e compositor. De samba. Como tinha sobrenome italiano, João resolveu mudar para emplacar seu samba. E como ia mudar o sobrenome, mudou o nome. Virou Adoniran Barbosa. O cara falava errado, voz rouca, pinta de malandro da roça. Virou ícone da música brasileira, o mais paulista de todos, falando errado e irritando Vinicius de Moraes, que ficou de bico fechado depois de ouvir a música que Adoniran fez para a letra Bom dia, tristeza, de autoria do Poetinha. Coisa de arrepiar. Para toda essa gente que implicava, Adoniran tinha uma resposta neoerudita: “Gosto de samba e não foi fácil, pra mim, ser aceito como compositor, porque ninguém queria nada com as minhas letras que falavam ‘nóis vai’, ‘nóis fumo’, ‘nóis fizemo’, ‘nóis peguemo’. Acontece que é preciso saber falar errado. Falar errado é uma arte, senão vira deboche”. Ele sabia o que fazia. Por isso dizia que falar errado era uma arte. A sua arte. Escolhida a dedo porque casava com seu tipo. O Samba do Arnesto é um monumento à fala errada, assim como Tiro ao Álvaro. O erudito podia resmungar, mas o povo se identificava. O “falar errado” a que o texto se refere constitui um preconceito em relação ao uso que Adoniran Barbosa fazia da língua em suas composições, pois esse uso
Alternativas
- A)
marcava a linguagem dos comediantes no mesmo período.
- B)
prejudicava a compreensão das canções pelo público.
- C)
denunciava a ausência de estilo nas letras de canção.
- D)
restringia a criação poética nas letras do compositor.
- E)
transgredia a norma-padrão vigente à época.
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Perguntas frequentes
O que é preconceito linguístico?
Preconceito linguístico é a discriminação baseada na forma de falar de um grupo, geralmente associada a variedades não padrão. Ele valoriza a norma-padrão como superior, estigmatizando falares de classes sociais mais baixas ou regiões desprestigiadas.
Por que Adoniran Barbosa usava expressões como 'nóis vai'?
Adoniran Barbosa utilizava intencionalmente variantes do português popular para construir uma persona artística autêntica e se conectar com o povo. Ele defendia que falar 'errado' era uma arte, pois as escolhas linguísticas eram conscientes e estilísticas.
Como o ENEM aborda a variação linguística?
O ENEM frequentemente aborda variação linguística em questões de Linguagens, cobrando a compreensão de que todas as variedades são legítimas e que o preconceito linguístico reflete desigualdades sociais. É comum analisar textos que valorizam falares regionais ou populares.