Ano 2023#ciencias-humanas

Sobre o tema

O conto "Sombras de reis barbudos", de José J. Veiga, publicado em 1978, é uma obra que utiliza elementos fantásticos e do cotidiano para criticar o regime militar brasileiro. A narrativa, vista pelos olhos de um menino, revela como o medo e a opressão se infiltram nas ações mais simples, como pular muros ou carregar água. A Companhia, entidade opressora, impõe proibições absurdas e castigos físicos, simbolizando o controle autoritário e a violência do Estado. O contexto histórico da década de 1970, marcado pela censura e repressão, é transposto para uma realidade ficcional que expõe a lógica do medo como mecanismo de dominação. A questão explora como a literatura pode representar criticamente momentos políticos, utilizando alegorias para denunciar abusos de poder.

Tópicos relacionados

  • Literatura brasileira e ditadura militar
  • José J. Veiga e o realismo fantástico
  • Allegoria e crítica social na ficção
  • Medo e controle social na literatura
  • Interpretação de textos literários no ENEM

Enunciado

Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram acontecendo na cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas inteiramente bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia cuspir pra cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que não sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os meninos. E não confiando na proibição só, nem na força dos castigos, que eram rigorosos, a Companhia ainda mandou fincar cacos de garrafa nos muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe. Meu pai ouviu lá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma coisa ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens; se alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos; se alguém conseguisse pular um muro quebrando era apanhado pela proibição, nhoc – e fez o gesto de quem torce o pescoço de um frango.
VEIGA, J. J. Sombras de reis barbudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um esboço do momento político vigente na década de 1970, aqui representado pelo

Alternativas

  • A)

    Culto ao medo, infiltrado em situações do cotidiano.

  • B)

    Sentimento de dúvida quanto à veracidade das informações.

  • C)

    Ambiente de sonho, delineado por imagens perturbadoras.

  • D)

    Incentivo ao desenvolvimento econômico com a iniciativa privada.

  • E)

    Espaço urbano marcado por uma política de isolamento das crianças.

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Perguntas frequentes

O que caracteriza a literatura de resistência durante a ditadura militar no Brasil?

A literatura de resistência usava alegorias, metáforas e o fantástico para criticar o regime, evitando a censura direta. Autores como José J. Veiga e Ignácio de Loyola Brandão criaram universos ficcionais que espelhavam a opressão e o medo.

Qual a importância de José J. Veiga na literatura brasileira?

José J. Veiga é conhecido por seu realismo fantástico, mesclando o cotidiano com elementos surrealistas para criticar o autoritarismo. Sua obra "Sombras de reis barbudos" é um exemplo de como a ficção pode denunciar a repressão política.

Como o medo é utilizado como ferramenta de controle social na obra de Veiga?

No conto, a Companhia impõe proibições arbitrárias e punições violentas, criando um ambiente de medo que inibe a desobediência. O narrador-menino percebe que o medo está infiltrado no dia a dia, controlando até ações simples como pular muros.

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