Sobre o tema
A linguagem é viva e reflete valores sociais. O texto de Mário Eduardo Viaro discute o verbo 'pinchar', usado no interior de São Paulo para 'jogar fora', e sua possível extinção. O autor argumenta que palavras podem desaparecer não por ineficiência comunicativa, mas por preconceito associado a grupos rurais ou de baixa escolaridade. Esse fenômeno revela como a língua é marcada por hierarquias sociais: a gramática normativa e o estigma cultural levam falantes a abandonar termos que julgam 'inferiores'. A reflexão sobre a extinção lexical é análoga à perda de biodiversidade, mas, diferentemente, não causa comoção. Compreender esse processo é essencial para uma visão crítica da língua, valorizando a diversidade linguística e combatendo preconceitos.
Tópicos relacionados
- Preconceito linguístico
- Variação linguística e estigma social
- Extinção lexical na língua
- Sociolinguística e norma culta
Enunciado
Palavras jogadas fora
Quando criança, convivia no interior de São Paulo com o curioso verbo pinchar e ainda o ouço por lá esporadicamente. O sentido da palavra é o de “jogar fora” (pincha fora essa porcaria) ou “mandar embora” (pincha esse fulano daqui). Teria sido uma das muitas palavras que ouvi menos na capital do estado e, por conseguinte, deixei de usar. Quando indago às pessoas se conhecem esse verbo, comumente escuto respostas como “minha avó fala isso”. Aparentemente, para muitos falantes, esse verbo é algo do passado, que deixará de existir tão logo essa geração antiga morrer. As palavras são, em sua grande maioria, resultados de uma tradição: elas já estavam lá antes de nascermos. “Tradição”, etimologicamente, é o ato de entregar, de passar adiante, de transmitir (sobretudo valores culturais). O rompimento da tradição de uma palavra equivale à sua extinção. A gramática normativa muitas vezes colabora criando preconceitos, mas o fator mais forte que motiva os falantes a extinguirem uma palavra é associar a palavra, influenciados direta ou indiretamente pela visão normativa, a um grupo que julga não ser o seu. O pinchar, associado ao ambiente rural, onde há pouca escolaridade e refinamento citadito, está fadado à extinção?
É louvável que nos preocupemos com a extinção de ararinhas-azuis ou dos micos-leão-dourados, mas a extinção de uma palavra não promove nenhuma comoção, como não nos comovemos com a extinção de insetos, a não ser dos extraordinariamente belos. Pelo contrário, muitas vezes a extinção das palavras é incentivada.
VIARO, M. E. Língua Portuguesa, n. 77, mar. 2012 (adaptado).
A discussão empreendida sobre o (des)uso do verbo “pinchar” nos traz uma reflexão sobre a linguagem e seus usos, a partir da qual compreende-se que:
Alternativas
- A)
As palavras esquecidas pelos falantes devem ser descartadas dos dicionários, conforme sugere o título.
- B)
O cuidado com espécies animais em extinção é mais urgente do que a preservação de palavras.
- C)
O abandono de determinados vocábulos está associado a preconceitos socioculturais.
- D)
As gerações têm a tradição de perpetuar o inventário de uma língua.
- E)
O mundo contemporâneo exige a inovação do vocabulário das línguas.
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Perguntas frequentes
O que é preconceito linguístico?
É a discriminação baseada nas diferenças entre variedades linguísticas, geralmente contra falares populares, regionais ou de grupos socialmente marginalizados.
Por que palavras caem em desuso?
Além de mudanças naturais na língua, fatores sociais como preconceito, urbanização e a associação a grupos estigmatizados levam ao abandono de termos.
Qual a diferença entre norma culta e variação linguística?
A norma culta é a variedade prestigiada, ligada à escrita e à escolarização; a variação linguística engloba todas as formas de falar, incluindo regionais e populares.