Ano 2014

Sobre o tema

A ironia é uma das marcas mais distintivas do estilo de Machado de Assis, especialmente em 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', obra que inaugura o Realismo no Brasil. Nesse romance, o narrador defunto Brás Cubas utiliza a ironia para desnudar as hipocrisias da sociedade carioca do século XIX. Um exemplo notável está na descrição do cunhado Cotrim, que, apesar de sua crueldade com os escravos, é apresentado como 'honrado'. Machado desconstrói essa aparente moralidade ao sugerir que a violência é resultado das 'relações sociais', uma crítica direta à naturalização da escravidão. A questão explora como o narrador refina sua percepção irônica, não apenas acusando, mas explicando as contradições humanas por meio de determinantes sociais.

Tópicos relacionados

  • Ironia machadiana
  • Realismo brasileiro
  • Crítica à escravidão em Machado de Assis
  • Análise de personagem: Cotrim
  • Recursos narrativos em Memórias Póstumas

Enunciado

Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço que era um modelo. Arguíam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo.

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.

Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira, _Memórias póstumas de Brás Cubas_ condensa numa expressividade que caracterizaria o estilo machadiano: a ironia.

Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o narrador-personagem Brás Cubas refina a percepção irônica ao

Alternativas

  • A)

    Acusar o cunhado de ser avarento para confessar-se injustiçado na divisão da herança paterna.

  • B)

    Atribuir a “efeito de relações sociais” a naturalidade com que Cotrim prendia e torturava os escravos.

  • C)

    Considerar os “sentimentos pios” demonstrados pelo personagem quando da perda da filha Sara.

  • D)

    Menosprezar Cotrim por ser tesoureiro de uma confraria e membro remido de várias irmandades.

  • E)

    Insinuar que o cunhado era um homem vaidoso e egocêntrico, contemplado com um retrato a óleo.

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Perguntas frequentes

O que caracteriza a ironia machadiana?

A ironia machadiana é marcada pelo tom aparentemente inocente do narrador, que contradiz suas próprias afirmações para expor hipocrisias sociais. Ela frequentemente revela que valores moralizantes encobrem interesses egoístas ou crueldade.

Como Machado de Assis critica a escravidão em Memórias Póstumas de Brás Cubas?

Machado critica a escravidão ao mostrar personagens que a consideram natural, como Cotrim, que tortura escravos e ainda é visto como 'honrado'. A ironia expõe a contradição entre a moral religiosa e a violência cotidiana.

Qual o papel de Brás Cubas como narrador na construção da ironia?

Brás Cubas, narrador defunto, tem liberdade para comentar o passado com distanciamento. Sua voz assume tons de sinceridade que logo se revelam sarcásticos, levando o leitor a questionar a veracidade do que é dito.