Sobre o tema
A função metalinguística da linguagem ocorre quando o código é usado para falar sobre ele mesmo, ou seja, quando a mensagem tem como referente o próprio ato de comunicação. No poema "Lusofonia", de Nuno Júdice, o eu lírico reflete sobre as diferenças lexicais entre o português de Portugal e do Brasil, especialmente a palavra "rapariga", que em Portugal significa "moça" e no Brasil "meretriz". Essa reflexão sobre o significado das palavras e a dificuldade de escrever um poema que seja compreendido em diferentes contextos linguísticos exemplifica a metalinguagem. A obra, portanto, tematiza o próprio fazer poético, discutindo os desafios da criação artística diante das variações da língua. Essa característica é típica da poesia contemporânea, que frequentemente se volta para o processo de construção da obra.
Tópicos relacionados
- Funções da linguagem na literatura
- Metalinguagem em poemas
- Diferenças lexicais entre português de Portugal e Brasil
- Poesia contemporânea e autorreferência
- Análise de poema de Nuno Júdice
Enunciado
Lusofonia
_rapariga:_ s.f., fem. de rapaz: mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.
Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena de café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar o
atlântico para desembarcar no rio de janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga do
café. A solução, então, é mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma
rapariga se pode sentar à mesa porque só servem café ao balcão.
JÚDICE, N. Matéria do Poema. Lisboa: D. Quixote, 2008.
O texto traz em relevo as funções metalinguística e poética. Seu caráter metalinguístico justifica-se pela
Alternativas
- A)
Discussão da dificuldade de se fazer arte inovadora no mundo contemporâneo.
- B)
Defesa do movimento artístico da pós-modernidade, típico do século XX.
- C)
Abordagem de temas do cotidiano, em que a arte se volta para assuntos rotineiros.
- D)
Tematização do fazer artístico, pela discussão do ato de construção da própria obra.
- E)
Valorização do efeito de estranhamento causado no público, o que faz a obra ser reconhecida.
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Perguntas frequentes
O que é a função metalinguística da linguagem?
É a função em que a mensagem se refere ao próprio código, ou seja, a linguagem fala sobre si mesma. Exemplos: dicionários, poemas que discutem o ato de escrever.
Como identificar a função metalinguística em um texto literário?
Quando o texto reflete sobre a própria linguagem, como discutir significados de palavras, o processo de escrita ou a estrutura da obra. No poema de Júdice, o eu lírico questiona o uso da palavra 'rapariga'.
Qual a diferença entre função poética e metalinguística?
A função poética foca na forma da mensagem (ritmo, sonoridade), enquanto a metalinguística foca no código. Ambas podem coexistir, como no poema, que tem forma poética e discute a língua.
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