Sobre o tema
O trecho de 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', de Machado de Assis, apresenta a metáfora do relógio como elemento central para a desconstrução de paradigmas românticos. Na literatura brasileira, o Romantismo valorizava o amor idealizado, a subjetividade e a fuga da realidade. Machado, precursor do Realismo, subverte essas noções ao utilizar o tiquetaque da pêndula para materializar o tempo e ironizar a idealização do amor. Brás Cubas, narrador defunto, reflete sobre o beijo trocado com Virgília, mulher casada, e transforma a contagem das horas em símbolo de desejo e posse. Essa abordagem crítica evidencia o caráter realista da obra, que questiona os valores românticos por meio de uma perspectiva cética e materialista. A metáfora do relógio, portanto, não apenas marca o tempo cronológico, mas também serve como ferramenta para desmascarar a idealização amorosa, típica do Romantismo.
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- Desconstrução do amor romântico
- Narrador defunto e visão crítica
- Memórias Póstumas de Brás Cubas
Enunciado
Capítulo LIV — A pêndula
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tiquetaque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos…
— Outra de menos…
— Outra de menos…
— Outra de menos…
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992 (fragmento).
O capítulo apresenta o instante em que Brás Cubas revive a sensação do beijo trocado com Virgília, casada com Lobo Neves. Nesse contexto, a metáfora do relógio desconstrói certos paradigmas românticos, porque
Alternativas
- A)
O narrador e Virgília não têm percepção do tempo em seus encontros adúlteros.
- B)
Como “defunto autor”, Brás Cubas reconhece a inutilidade de tentar acompanhar o fluxo do tempo.
- C)
Na contagem das horas, o narrador metaforiza o desejo de triunfar e acumular riquezas.
- D)
O relógio representa a materialização do tempo e redireciona o comportamento idealista de Brás Cubas.
- E)
O narrador compara a duração do sabor do beijo à perpetuidade do relógio.
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Perguntas frequentes
O que é a metáfora do relógio em 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'?
A metáfora do relógio representa a materialização do tempo e a contagem dos instantes perdidos ou ganhos. Machado usa o tiquetaque para criticar a idealização romântica, mostrando o tempo como recurso finito e banal.
Como Machado de Assis desconstrói o amor romântico nessa obra?
Ao ironizar a idealização do amor, como no episódio do beijo com Virgília, Machado revela o caráter egoísta e material dos afetos, subvertendo o sentimentalismo romântico com uma visão realista e cética.
Qual a importância do narrador defunto Brás Cubas para a narrativa realista?
Brás Cubas, morto, narra sua vida com distanciamento e ironia, permitindo uma análise crítica da sociedade e dos valores idealizados. Essa perspectiva é inovadora e típica do Realismo machadiano.