Ano 2012#linguagens

Sobre o tema

A linguagem não serve apenas para informar, mas também para brincar, poetizar e criar sentidos inesperados. O texto de Manoel de Barros, extraído de 'Memórias inventadas', explora como usos não convencionais da língua, como a preposição deslocada em 'voltou de ateu' ou o neologismo 'disilimina', podem gerar beleza, humor e emoção. Essa reflexão é central para os estudos de variação linguística e função poética da linguagem, mostrando que o erro gramatical, quando intencional ou contextual, pode ser recurso expressivo. A questão do ENEM 2012 aborda justamente essa valorização da dimensão lúdica e criativa da língua, destacando que a norma culta não é o único parâmetro para avaliar a riqueza comunicativa.

Tópicos relacionados

  • Variação linguística e preconceito
  • Função poética da linguagem
  • Neologismos e criatividade lexical
  • Linguagem coloquial e expressividade
  • Manoel de Barros e a poesia do cotidiano

Enunciado

Cabeludinho

Quando a Vó me recebeu nas férias, ela me apresentou aos amigos: Este é meu neto. Ele foi estudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse que eu voltei de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de ateu. Como quem dissesse no Carnaval: aquele menino está fantasiado de palhaço. Minha avó entendia de regências verbais. Ela falava de sério. Mas todo-mundo riu. Porque aquela preposição deslocada podia fazer de uma informação um chiste. E fez. E mais: eu acho que buscar a beleza nas palavras é uma solenidade de amor. E pode ser instrumento de rir. De outra feita, no meio da pelada um menino gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu não disiliminei ninguém. Mas aquele verbo novo trouxe um perfume de poesia à nossa quadra. Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aquela que não pode mudar de lugar. Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam. Por depois ouvi um vaqueiro a cantar com saudade: Ai morena, não me escreve / que eu não sei a ler. Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro.

BARROS, M. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.

No texto, o autor desenvolve uma reflexão sobre diferentes possibilidades de uso da língua e sobre os sentidos que esses usos podem produzir, a exemplo das expressões “voltou de ateu”, “disilimina esse” e “eu não sei a ler”. Com essa reflexão, o autor destaca

Alternativas

  • A)

    Os desvios linguísticos cometidos pelos personagens do texto.

  • B)

    A importância de certos fenômenos gramaticais para o conhecimento da língua portuguesa.

  • C)

    A distinção clara entre a norma culta e as outras variedades linguísticas.

  • D)

    O relato fiel de episódios vividos por Cabeludinho durante as suas férias.

  • E)

    A valorização da dimensão lúdica e poética presente nos usos coloquiais da linguagem.

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Perguntas frequentes

O que é variação linguística?

Variação linguística é o fenômeno pelo qual uma língua se manifesta de diferentes formas conforme fatores regionais, sociais, históricos ou contextuais. Exemplos incluem diferenças entre fala formal e informal, gírias e dialetos.

Qual a diferença entre norma culta e norma popular?

Norma culta é a variedade linguística associada a contextos formais e à escrita padrão, enquanto a norma popular abrange usos coloquiais e regionais. Ambas são igualmente válidas como sistemas comunicativos.

O que é função poética da linguagem?

Função poética é aquela centrada na mensagem, valorizando a forma, o som e as combinações de palavras para criar efeitos estéticos, como rimas, metáforas e jogos de palavras. É comum na literatura e na publicidade.

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