Sobre o tema
O fragmento de "O aprendizado", de Samuel Rawet, critica a habilidade de um personagem em manipular a linguagem conforme o interlocutor, revelando uma consciência estratégica do poder discursivo. A obra integra a literatura brasileira do século XX, explorando temas como alienação e jogos de poder. A crítica central reside na transformação do personagem em um títere voluntário, que se anula ao adaptar seu discurso para obter vantagens sociais. Rawet utiliza a metáfora do fantoche para denunciar a perda de autenticidade e a instrumentalização da linguagem como ferramenta de ascensão. A questão exige compreensão da ironia e da crítica social implícitas no texto, associando a conduta do protagonista à ideia de que, ao dominar os discursos, ele se torna marionete do sistema.
Tópicos relacionados
- Metáfora do títere na literatura
- Crítica social em Samuel Rawet
- Jogos de poder e linguagem
- Adaptação discursiva e hipocrisia social
- Literatura brasileira do século XX
Enunciado
E como manejava bem os cordéis de seus títeres, ou ele mesmo, títere voluntário e consciente, como entregava o braço, as pernas, a cabeça, o tronco, como se desfazia de suas articulações e de seus reflexos quando achava nisso conveniência. Também ele soubera apoderar-se dessa arte, mais artifício, toda feita de sutilezas e grosserias, de expectativa e oportunidade, de insolência e submissão, de silêncios e rompantes, de anulação e prepotência. Conhecia a palavra exata para o momento preciso, a frase picante ou obscena no ambiente adequado, o tom humilde diante do superior útil, o grosseiro diante do inferior, o arrogante quando o poderoso em nada o podia prejudicar. Sabia desfazer situações equívocas, e armar intrigas das quais se saía sempre bem, e sabia, por experiência própria, que a fortuna se ganha com uma frase, num dado momento, que este momento único, irrecuperável, irreversível, exige um estado de alerta para a sua apropriação.
RAWET, S. O aprendizado. In: Diálogo. Rio de Janeiro: GRD, 1963 (fragmento).
No conto, o autor retrata criticamente a habilidade do personagem no manejo de discursos diferentes segundo a posição do interlocutor na sociedade. A crítica à conduta do personagem está centrada
Alternativas
- A)
Na imagem do títere ou fantoche em que o personagem acaba por se transformar, acreditando dominar os jogos de poder na linguagem.
- B)
Na alusão à falta de articulações e reflexos do personagem, dando a entender que ele não possui o manejo dos jogos discursivos em todas as situações.
- C)
No comentário, feito em tom de censura pelo autor, sobre as frases obscenas que o personagem emite em determinados ambientes sociais.
- D)
Nas expressões que mostram tons opostos nos discursos empregados aleatoriamente pelo personagem em conversas com interlocutores variados.
- E)
No falso elogio à originalidade atribuída a esse personagem, responsável por seu sucesso no aprendizado das regras de linguagem da sociedade.
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Perguntas frequentes
O que significa a metáfora do títere na literatura?
Na literatura, a metáfora do títere representa a perda de autonomia do indivíduo, que se deixa manipular por forças externas, como normas sociais ou relações de poder, tornando-se um fantoche.
Como a crítica social aparece na obra de Samuel Rawet?
Rawet frequentemente critica a alienação e a hipocrisia social, especialmente em contextos urbanos, mostrando personagens que se moldam às expectativas alheias para obter vantagens.
Qual a relação entre linguagem e poder no conto 'O aprendizado'?
O personagem usa a linguagem como instrumento de poder, ajustando seu discurso conforme o interlocutor para conquistar favores ou demonstrar superioridade, revelando a manipulação como estratégia social.