Ano 2010

Sobre o tema

O conto 'Negrinha', de Monteiro Lobato, é uma crítica contundente à hipocrisia social do Brasil pós-abolição. A história expõe a persistência dos valores escravocratas mesmo após a Lei Áurea, evidenciando como a elite brasileira se adaptou ao novo regime sem abandonar a violência e o desprezo pelos negros. A personagem dona Inácia, descrita como 'excelente senhora' e 'esteio da religião', trata a órfã Negrinha com crueldade, revelando a contradição entre a moral cristã e a prática social. Monteiro Lobato, um dos maiores nomes do pré-modernismo brasileiro, utiliza a ironia para denunciar esse abismo entre o discurso religioso e as ações violentas, oferecendo uma reflexão profunda sobre a desigualdade racial e a hipocrisia que marcaram a sociedade brasileira do início do século XX.

Tópicos relacionados

  • Monteiro Lobato e crítica social
  • Escravidão e pós-abolição no Brasil
  • Ironia na literatura brasileira
  • Pré-modernismo brasileiro
  • Personagens femininas em Lobato

Enunciado

Negrinha

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e  camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar),  ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em  suma – “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva.
\[…\]
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e zera ao regime novo – essa indecência de negro igual.

LOBATO, M. Negrinha. In: MORICONE, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000 (fragmento).

A narrativa focaliza um momento histórico-social de valores contraditórios. Essa contradição infere-se, no contexto, pela

Alternativas

  • A)

    Falta de aproximação entre a menina e a senhora, preocupada com as amigas.

  • B)

    Receptividade da senhora para com os padres, mas deselegante para com as beatas.

  • C)

    Ironia do padre a respeito da senhora, que era perversa com as crianças.

  • D)

    Resistência da senhora em aceitar a liberdade dos negros, evidenciada no final do texto.

  • E)

    Rejeição aos criados por parte da senhora, que preferia tratá-los com castigos.

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Perguntas frequentes

O que simboliza a personagem Negrinha no conto de Monteiro Lobato?

Negrinha simboliza a continuidade da opressão racial após a abolição, representando as crianças negras e pobres que ainda sofriam com a violência e o preconceito da elite brasileira.

Como Monteiro Lobato utiliza a ironia em 'Negrinha'?

Lobato emprega ironia ao descrever dona Inácia como 'excelente senhora' e 'virtuosa', enquanto suas ações são cruéis, evidenciando a hipocrisia social e religiosa da época.

Qual o contexto histórico abordado no conto?

O conto se passa no Brasil pós-abolição (após 1888), quando a escravidão foi legalmente extinta, mas a mentalidade escravocrata e as práticas violentas contra negros permaneciam, especialmente nas relações de trabalho e no tratamento de crianças órfãs.