Ano 2009

Sobre o tema

A literatura brasileira da década de 1970, em plena ditadura militar, caracterizou-se por uma fusão entre experimentação estética e engajamento político. Raduan Nassar, em 'Um Copo de Cólera' (1978), exemplifica essa tendência ao construir uma narrativa de confronto verbal entre amantes que ecoa a repressão e o autoritarismo do período. O texto é marcado por um fluxo de consciência intenso, linguagem agressiva e tom de denúncia, rejeitando valores tradicionais como amor, família e igreja. A obra não apenas reflete a amargura política da época, mas também inova ao utilizar um estilo fragmentado e visceral, típico da prosa experimental que buscava romper com convenções literárias para expressar a crise de valores e a opressão social.

Tópicos relacionados

  • Literatura brasileira dos anos 1970
  • Raduan Nassar e a prosa experimental
  • Ditadura militar e alegoria literária
  • Fluxo de consciência e linguagem agressiva

Enunciado

Texto I
\[…\] já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio — definitivamente fora de foco — cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes \[…\].

NASSAR, R. Um copo de cólera. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992.

Texto II
Raduan Nassar lançou a novela Um Copo de Cólera em 1978, fervilhante narrativa de um confronto verbal entre amantes, em que a fúria das palavras cortantes se estilhaçava no ar. O embate conjugal ecoava o autoritário discurso do poder e da submissão de um Brasil que vivia sob o jugo da ditadura militar.

COMODO, R. Um silêncio inquietante. IstoÉ. Disponível em:
http://www.terra.com.br. Acesso em: 15 jul. 2009.

Na novela Um Copo de Cólera, o autor lança mão de recursos estilísticos e expressivos típicos da literatura produzida na década de 70 do século passado no Brasil, que, nas palavras do crítico Antonio Candido, aliam “vanguarda estética e amargura política”. Com relação à temática abordada e à concepção narrativa da novela, o texto I

Alternativas

  • A)

    É escrito em terceira pessoa, com narrador onisciente, apresentando a disputa entre um homem e uma mulher em linguagem sóbria, condizente com a seriedade da temática político-social do período da ditadura militar.

  • B)

    Articula o discurso dos interlocutores em torno de uma luta verbal, veiculada por meio de linguagem simples e objetiva, que busca traduzir a situação de exclusão social do narrador.

  • C)

    Representa a literatura dos anos 70 do século XX e aborda, por meio de expressão clara e objetiva e de ponto de vista distanciado, os problemas da urbanização das grandes metrópoles brasileiras.

  • D)

    Evidencia uma crítica à sociedade em que vivem os personagens, por meio de fluxo verbal contínuo de tom agressivo.

  • E)

    Traduz, em linguagem subjetiva e intimista, a partir do ponto de vista interno, os dramas psicológicos da mulher moderna, às voltas com a questão da priorização do trabalho em detrimento da vida familiar e amorosa.

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Perguntas frequentes

Qual o contexto histórico de 'Um Copo de Cólera'?

A novela foi publicada em 1978, durante a ditadura militar brasileira. O confronto verbal entre os amantes funciona como alegoria da repressão política e do autoritarismo do regime.

Como a linguagem reflete a crítica social na obra?

Nassar utiliza um fluxo verbal contínuo, agressivo e fragmentado, que rompe com a estrutura narrativa tradicional. Essa linguagem expressa a revolta do narrador contra valores sociais impostos e a opressão vivida.

Por que o narrador adota um tom agressivo e niilista?

O narrador rejeita instituições como amor, família e igreja, e escolhe o exílio interior. O tom agressivo reflete sua consciência da hipocrisia social e a impossibilidade de conciliação com o sistema opressor.